Prólogo sobre minhas obras musicais
Por ser cantor, compositor, pesquisador e escritor, faço uma arte a qual foge do conceito do termo música regional, mas sim nativista, porque eu faço incidência harmônica com o manancial antropológico e vernacular da fala do ribeirinho, do peão pantaneiro numa poesia singular, o qual não uso o ufanismo dominante comum nas músicas regionais de Mato Grosso. As vezes estou relatando e denunciando o que está se passando na minha região, principalmente no Pantanal, onde oitenta por cento do meu 1º CD, intitulado Pantanal … Branco Preto, gravado há trinta anos, hoje tornou-se uma obra singular e vaticina porque eu canto um alerta sobre o que tá acontecendo hoje no Pantanal, dado que foi composta há três
décadas. Nesse rol das letras das minhas gravações, tem umas três que são inéditas, isto é: não foram gravadas. Por outro lado tenho música em parcerias com outros músicos da linha da Vanguarda Nativista, ideologia desenvolvidas há quase 40 anos baseado na premissa do grande escritor russo, Leon Tolstói que disse numa de suas máximas: “ Se queres ser universal… Cante a sua aldeia!”. Além dessas letras musicais, muitas obras instrumental, para cinema, teatro, mas somente os dois CDs gravados pela Orquestra Sinfônica de Mato Grosso, intitulados, O Berrante Pantaneiro e Pantanal Sinfônico e, que se encontra neste site no bloco de áudio das gravações em CDs, é que sinto que completei a minha intenção como músico e ativista cultural levando a nossa musicalidade elaborada à nível sinfônico, coisa que nunca foi levado a sério e feito pela Universidade Federal de Mato Grosso a qual tem uma Orquestra há mais de 50 anos. Fazer arte pela arte nos dias de hoje é uma decisão funesta pra um artista, porque você assina um tratado o qual não terá lucro e nem futuro num mundo cada vez mais dominado pelo marketing que objetiva o comercio e o lucro e dá pouca importância para a qualidade artística.Guapo
Clique no título da música para abrir a letra
Eu sou este canto “guacho”
Que veio do pantanal
Da beira de algum riacho (coritxo)
Ou meio de um mandiocal
Sou “laia” de água barrenta
Ou “guasca” de couro cru
Um canto que ainda agüenta
A praga dos urubus
Sem rédeas, cela ou “batchero”
Eu venho para ficar
Da saga “pantanero”
Eu faço este meu cantar
Lutando pra não morrer
Na beira do Paraguai
Da “guampa de tererê”
Um verso molhado sai
Sou um canto “guacho”
Sou do Pantanal
Sou de algum riacho
Sou do pantanal
Quando “tchega bem cedo”
E as “palmera balançano”
No porto “já tá os djacá”
Cuyabá “já tá acordano”
Quando “tchega bem cedo”
Na matriz “já tá tocano”
É hora de “começá”
O dia que vem “tchegando”
Se “ôce” vai “na missa”
“O na fêra da mandioca”
Jóquim!… “Num esqueçe da carroça”
Pois “iô” quero “leva” o piano,
A “penteadera” e umas “badulaquera”
Lá pra casa ” do Chô Doca”
Quando está amanhecendo
E as palmeiras balançando
No porto as F-1000
Cuiabá está acordando
Quando está amanhecendo
Muita gente se aprontando
É hora de “agilizar”!
O dia que vem chegando
Se você vai ao banco
Ou na Praça Alencastro
Meu bem!… Não esquece nosso trato
Se vender a fazenda
Aplique no “over nigth” pra ficarmos “numa Nice”
Atual de fino trato
Nasci à beira da água ligeira
Sou Payaguá
De sul a norte, tribo mais forte
Que nós não há,
(Canção Payaguá – Don Aquino Corrêa)
Pantanal “frontera” minha
De pitomba e jatobá
“Lavadera, poaiero”
‘Carrocero” e “charopá”
Corumbá, Porto Esperança
Paraíso Payaguá
“Canoeros” jamais visto
Fibra verde… “carandá”
Aguapé, vitória-régia
Camalote e Biguá
“Boiadero fronteriço”
Seiva forte… Payaguá
Moreninha, olhos negros
Capilé, maracujá
Tererê das tardes quentes
Flor morena… Payaguá
Pantanal “frontera” minha
Paraíso Payaguá
Com a marcha do progresso
Nem sei como vai “cá”
Mato Grosso na “frontera”
Tem “Chiquito” e “Payaguá”
Tem “morena pantanera”
Cacerense e “charopá”
Mato Grosso na “frontera”
Tem rasqueado e caburé
Tem Coricha e San Matias
Tem Gaiva e Mandiorê
E o tempo passou
E a vida mudou
E a rasga-motalha cantou
Na bera do rio
“O mato caiu”
E o “pé-de-garrafa” sumiu
Mato Grosso na “frontera”
Tinha bagre e djacaré
Capivara nas “zambuera”
E “piava tchamburé”
Mato Grosso no “frontera”
Resta pouco pra acabar
Sem floresta o “Pai-do-mato”
Foi pra nunca mais voltar
E o tempo passou
Vinhoto chegou
E a rasga-mortalha cantou
Na “bera” do rio
O mato caiu
E o “pé-de-garrafa” sumiu
Declamado:
Velhos acordes que ressoam
Na minha ausência de “fronterizo”
Acordes de chamamé sentindo
Que clama pra não ser esquecido,
Como um grito de liberdade,
Como um soluço ressentido!
Um velho bandoneón
Uma canção, um chamamé
Numa varanda, numa cidade,
Dentro de um tempo,
Dentro de um ser…
Sentia que a vida era
Um labirinto de renascer,
Em cada acorde e em cada nota,
Sempre cantando um chamamé…
Meu canto ficou no tempo,
Vibrando pra não morrer
Um triste suspiro ausente
Num descampado desvanecer
E a sombra com seu dever
De tudo descolorir
Cobriu com seu manto negro
Velhas imagens de um guri!
Declamando:
E os acordes se perderam na
Imensidão do tempo
Como aguapé na correnteza…
Com eles foi minha infância
Cheia de imagens…
Somente o canto da japuíra
Que me trouxe de volta esses velhos acordes
Empoeirados de lembranças…
E do seu surto ainda embotado nasceu esta canção
As “festa” na baixada
Tem que ver como é que é
As “festa” na baixada
Tem tudo que a “dgente qué”
Tem baile a “noite intera”
Tem rasqueado e chamamé
Paçoca-de-pilão, pirão, pacu,
“Marizabel”
Tem bolo-de-arroz,
Tem arroz com pequi
Farofa de banana
Cururu e siriri
Tem festa na Baixada morena
Eu vim “pra te levá”
Pra “dançá a noite inteira” morena
“Até o sol raiá”
Requeng e Cinco Moreno”
“Já tá lá pra anima”
São Pedro, São Gonçalo,
São João e São Benedito
No dia de Santo Antônio
Que é o “Santo do festêro”
“Eu vô faze promessa”
“Pro santo casamentêro”
Das águas do Paraguai
Ao ronco do “caititu”
Nasci para “galopá”
“Nadá” e “remá” no Jauru
Eu venho insistir cantando
Prá salvar a garça e o tuiuiú
E sem “aporrinhá” bastante
Vou “falá” também do nosso pacu
Eu quero é “falá pra bem”
Pois ouvi o canto do Jacurutu
Do jeito que ele “cantô”
Vão “fussá” até buraco de tatu
Das águas do Paraguai…
Eu venho “como que sem rédeas”
Espantar o pouso desses urubus
Que querem fazer de carniça
O povo Payaguá e o povo Guaicuru
Eu tenho que “cantá” mais forte
Antes que “começa esse sururu”
E achar um jeito de “embromá”
Pra salvar do bote da surucucu
Essa gente de Pontes e Lacerda
La da “Bera do Guaporé”
Tem um jeito de “cantá dançano”
“Arrastano tudo no pé”
O preto que tocava sanfona
Abria o fole e o coração
Numa toada saudosa de um siriri
Que falava assim:
“Lá vem… lá vem”
“Lá vem tapuiaia”
“Lá vem batendo as asas”
“Pro rumo de Cuyabá”
“Debatcho do pé de maguera”
“Tudo mundo amucambado”
Costela de boi no espeto
E mandioca “ferventado”
É festa mato-grossense
É rasqueado é siriri
É um pedaço de Cuiabá
“La pras banda de Parecis”
Desperta ribeirinho! Desperta!…
Levanta a sua voz
“Traz sua viola-de-cocho”
E a sua força pra nós
Desperta ribeirinho! Desperta!…
E traz o seu batelão
A morte “já tá nos banhados”
“Nos rios e nos ribeirão”
Entoar um rasqueado
“Embala siriri”
Não ficar mais calado
E ensinar “pros guri”
“Entoa Pericón”
“Embala Santa Fé”
“Despertá Minhocão”
Pra salvar jacaré
Despertar ribeirinho! Desperta!..
Unidos num “cururu”
Traz uma toada mais forte
E o grito dos Guaycurus
Eu nasci nas invernada
Com mandioca e “tererê”
Pé de cedro, “bamburrá”
Onça parda e chamame
Se meu canto é muito forte
Se meu grito é de “peón”
Sou chibata sou “frontera”
Sou rasqueado sou “cançón”
Do casco do meu cavalo
Do canto da siriema
Com poeira de manada
Vai crescendo meu poema
Despertar da minha gente
É alegre “como que”
Esperança e liberdade
Florescendo o amanhecer
A garça voou….voou…voou
“Lá pro pantanal”
Na lagoa fico…
Fico todo meu “pená”!
Em tempo de incerteza
Morre o brilho de viver
Toda a graça da beleza
Se aniquila no querer
Essa angústia que consome
A esperança e o prazer
Traz no cio um desespero
E um amargo padecer
A garça voou…
É o rio escurecendo
“Muito pexe a reboja”
Ribeirinho está morrendo
Pois perdeu o seu lugar
Aguapé na correnteza
Deslocando pra “ajudá”
E o “sarã tá resistindo”
Balançando sem “pará”
No “rumor” do rio abaixo
Só tristeza e muita dor
Condenados ao relaxo
“Levergê e Engordadô”
Da “Guarita” a “São Gonçalo”
“Tá falano o pescado”
Se este rio vai “morre”
Nosso tempo “já acabô”
Resto de Guarania que ficou no ar
Com cheiro das águas do rio Paraguai
Resto de um passado que me faz lembrar
Um barco parado um doce rasqueado
E a vida cantar
Resto de pureza que ficou no ar
Com cheiro dos campos e do Pantanal
Restos de uma vida que ficou por lá
Suspiro calado de um tempo marcado
Que não volta mais
Sublime lembrança
Vagando no ar
As marcas deixadas
Despertam saudades
Neste meu cantar
Com seu semblante moreno
O seu traje é sempre escuro
Olhos negros e pequenos
Vai cruzando nossas ruas
O seu jeito bem ladino
E sorriso altaneiro
Vai menina
Exala seu fascínio
De morena “pantanera”
O seu batom bem vermelho
Sua fala é bela e franca
O longo dos seus cabelos
Que antes tinham tranças
Parece a flor da piúva
No tempo de primavera
Vai flor pura…
Exala sua formosura
Que não gosta de lapela
Aqui te canto morena linda
Com seu mistério índio Platino
Com seus cabelos que ainda não ficaram curtos
A sua franqueza no seu olhar
Reflete bororo e payaguá
Trás encantos lá da Baixada pra Cuiabá
Meu rancho é de chão batido
Coberto de Acurí
Parede toda de barro
Com carinho eu construí
Esteios de sucupira
Que no cerrado eu colhi
Ali eu vivo feliz
Com Maria e os guri
Fica perto da barranca
Do lindo Rio Cuiabá
Onde tem lindas palmeiras
Garça branca e sabiá
Fica perto da barranca
Do lindo Rio Cuiabá
Onde o canto da aracuã
Anuncia o despertar
Tenho viola-de-cocho
E um violão seresteiro
Quando “vêm noites de lua”
Eu saio lá “pro terreno”
Sempre tem alguns amigos
Que vem pra me visitar
Tem também cachaça boa
E nunca falta o guaraná
Entre uma trova e outra
Um rasqueado e um chamamé
Nasce uma toada nova
Como flor no amanhecer
Bem pertinho da barranca
Do lindo Rio Cuiabá
Onde a vida embroma o tempo
No cantar do sabiá
Lá no Baú tem um festão
Festa de nossa tradição
O povo inteiro em oração
Leva seu santo em procissão
Este é o Baú de nossa cultura
Que nas suas ruas
Há sempre um santo pra se louvar
Com muita fé no seu padroeiro
Faziam promessas na esperança de alcançar
Este é o Baú que seus filhos cantam
Com amargura por ter perdido a tradição
É tão bom lembrar a banda de Ignácio
Animando bailes tocando sempre este refrão
Lá no Baú tem um festão
Festa de nossa tradição
O povo inteiro em oração
Leva seu santo em procissão
O vento encrespa as águas do remanso
O sol reflete o verde das mangueira
Alegria da vida
Esta radiante
Nas areias quentes
Do rio Cuiabá
Aqui… começa a vida
Aqui…é o meu lugar
Aqui… longe bem distante
Vive a esperança
De um novo tempo
De um novo lar
O sabiá desperta o silêncio
Biguá mergulha em busca da lufada
Águapé floorido
Deixa colorido
Toda “barranquera”
Do Rio Cuiabá
Aqui… tempo não passa
Aqui… tudo é natural
Aqui… tudo é verdejante
O valor da vida
É a regalia
Do Rio Cuiabá
Sou marcas de um tempo vivido
Que já se foi
Palavras soltas ao vento
Que não voltam mais
Ânsia de amor perdido
Nos labirintos
Eco de um soluço triste
Que exalou no ar
Sou marcas de um sorriso franco
Do nunca jamais
Gesto de ternura humilde
Num tempo de paz
Juras de um amor sublime no entardecer
Murmúrio que ficou no ausente
De um tempo fugaz
Das lágrimas
Eu fiz canções
Da ânsia recordação
Do eco… exaltação
E as palavras soltas
Hoje estão presente
Como esta canção.
Na curva do rio que nasce o trovador
Esmera seu brilho da voz
Num esplendor
A água, o rio, a chuva
Seu provedor
De manter o alento
Do saber da vida
De cantar o amor
A alma nativa que gera um cantador
Floresce no fundo do tempo
De um grande amor,
Cantar, rimar é sina de trovador
Das coisas mais simples
Desde a alegria
As penas da dor
Saber cantar
Saber dizer
Saber falar
Saber sofrer
Saber contar
Saber saber
Que uma gota d’agua
Guarda a esperança
Do nosso viver
Numa gota d’agua
Esta a esperança
De renascer
Fui descansar
De baixo da mangueira
É mês de maio tempo de “dá frô”
A noite é fresca
E o luar faceiro
Convida a gente pra fazer amor
Senti saudade da linda morena
Que eu conheci lá no interior
Em cada verso
Que eu fiz pra ela
Esta o aroma da mangueira em flor.
Minha linda
Meu amor
Meu desejo
Meu calor
Os meus versos
Tem odor
Da mangueira
Quando esta soltando a flor.
“Saranzero véio de gaio caído na bera do rio”
“Fazeno Zambuera”
Guardano estória que ninguém
Não ouviu
Na seca, na “tcheia”
“tá” sempre esperano
O que há de vir
“Saranzero véio” eu vim aqui
Para ouvir te ouvir:
– Pra onde foi Negrinho d’agua?
Minhocão lá do pari?
Pai-do-mato e Pé-de-garrafa?
Eu vim aqui para te ouvir!
“- Foi levado pelas brumas
Foi levado pela sorte
Djá desceu pro rio abaixo
Numa flor de camalote”
“- Outros não quiseram ir
E ficaram por aqui
Pra ajudar os trovadores
De rasqueado e siriri!”
Estou cantando este chamamé
Na “bera” do rio
Buscando um eco que venha
De dentro do “Camalotal”
Da alma das águas
Do rebojo velho deste grande rio
Que me faz cantar
Que me faz sorrir
Que me faz sentir
Todo pantanal.
Que me faz cantar
Que me faz sorrir
Que me faz sentir
Todo pantanal.
Vejo no remanso
Minha vida inteira
No som do silêncio
Deste “Saranzal”
Na “bera” rio
O tempo “remantcha”
Tudo é atemporal
Como o pantanal